Teóricas Feministas que nos inspiram: Veena Das

Teóricas Feministas que nos inspiram: Veena Das
agosto 1, 2019 Priscila Kikuchi

Teóricas Feministas que nos inspiram

Veena Das

 

 

Veena Das é antropóloga, feminista e indiana nascida em 1945, em Lahore, hoje território paquistanês, e  filha de uma família hinduísta. Veena foi batizada com o nome de um dos instrumentos musicais mais tradicionais do mundo hindu, a vina, mãe dos cordofones, cujo desenvolvimento (pelas mãos do mestre Alaudin Khan) resultou no sarod e na cítara (indubitavelmente o mais famoso elemento da musicalidade indiana).

Entrou para o Departamento de Sociologia como estudante de mestrado em 1964, depois de terminar a graduação em sânscrito na Faculdade para Mulheres Indraprastha, da Universidade de Déli (UD).

O que levou Veena Das para a disciplina de sociologia foi mais o fato de haver uma rede de amigos e a atração pela atmosfera geral da instituição que abrigava a sociologia e não qualquer conhecimento sobre antropologia.

Veena Das também é ligada a lutas políticas, e sua maior questão era tornar a antropologia capaz de responder aos problemas que enxergava ao seu redor.

Mudou-se para os Estados Unidos no ano 2000, apesar de, em 1997, ter aceitado um convite da New School for Social Research (Nova York) onde lecionou um semestre por ano por três anos. Atualmente é professora da Johns Hopkins University, em Baltimore, Maryland.

Sobre os EUA, eu já havia aceitado missões de visita, embora não muito frequentes. Lecionei em Chicago, Harvard e na Faculdade de Amherst em 1976, 1982 e 1986, respectivamente. Durante os mais de 30 anos em que tinha lecionado na UD, nunca havia me ocorrido deixar meu país, apesar de ter recebido várias ofertas. Estava absolutamente dedicada à Escola de Déli, amava meus alunos e estava engajada não apenas em discussões, como também em muitos debates sobre ementas e sobre como a antropologia indiana deveria se apresentar no meu departamento.”

A ida para outro país se deu por vários motivos, mas em grande parte resultou da dificuldade de produzir um discurso libertador sobre o feminino em um país como a Índia: “Já estava cansada do fato de o tipo de antropologia que eu fazia ser constantemente colocado em questão e ser alvo de reações hostis, que não atingiam diretamente a mim, mas a meus alunos”, conta ela.

Mesmo assim, Veena Das ainda queria desesperadamente manter o acordo de passar um semestre por ano em Déli: “Mas os respectivos chefes de departamento de lá não concordaram em apoiar meu caso e me solicitaram que escolhesse entre ficar na Índia ou na New School. Então optei por uma aposentadoria precoce da UD”.

Porém, essa situação fez com que Veena Das pudesse fundar com alguns colegas uma instituição de pesquisa em Déli o Institute of SocioEconomic Research in Development and Democracy e agora trabalha nela, passando cerca de três meses por ano lá.

Veena Das destaca que os/as cientistas sociais que trabalham na Índia exercem uma forte influência na vida pública de lá, e que eles/as não se veem engajados em nenhum discurso derivado do Ocidente, isso porque os movimentos da Índia para o Ocidente e no sentido contrário seguem muitas trajetórias e redes diferentes.

A obra de Das tem despertado cada vez mais interesse no Brasil, em especial na área dos estudos do conflito e das comunidades desfavorecidas, particularmente por conta de sua forma muito peculiar de articular uma mútua dependência entre Estado e margens.

Veena Das é reconhecida no mundo acadêmico ocidental e oriental como uma das figuras mais representativas da antropologia contemporânea. Sua atividade acadêmica ativa e influente é desenvolvida tanto na cadeira universitária e na pesquisa quanto no campo da crítica social.

É uma voz autorizada em conferências e fóruns, atividades para às quais ela recebeu importantes prêmios e distinções ao longo de sua vida.

De fato, ela lidou com questões que têm a ver com o movimento feminista, estudos de gênero, a análise da violência sectária originada em referentes nacionalistas ou religiosos, a memória coletiva como fonte de recursos para a ação, a antropologia médica para abordar questões como o sofrimento e suas condições sociais, o cotidiano e o poder, estudos júnior, estudos teoria pós-colonial e pós-estruturalista.

Sobre ser uma mulher indiana com uma projeção académica significativa, Veena Das diz:

“Quanto a ser uma mulher se preparando para entrar na academia nos anos 1960, os obstáculos com que me deparei como jovem moça não vieram das instituições, mas de algumas de minhas circunstâncias familiares. Nenhuma mulher das gerações anteriores em minha família, imediata ou estendida, havia estudado ou sequer ido à escola. Deve ter sido por conta da atmosfera de nação recém-independente nos anos 1950 que fomos mandadas para a escola sem questionamentos. Vim de uma família que vivia em pobreza relativa, devido ao remanejamento resultante da Partição da Índia.”

 

Dica de Leitura.

Veena Das: Sujetos del dolor, agentes de dignidad

Este livro é sobre como o pensamento de Veena Das no meio acadêmico  tem um significado importante para às ciências sociais e humanas por reiterar reconhecimento da relevância de suas idéias e ao estreito relacionamento que mantêm com a ação crítica e transformadora das condições vigentes nas sociedades contemporâneas.

De fato, a atual situação complexa em que vive nosso mundo atual de conflitos internos e profunda crise institucional, geralmente nos impede de reconhecer e assumir que existe um tremendo paradoxo nas ciências sociais e humanas, o que desafia seus propósitos de contribuir da análise para a busca de possibilidades e saídas.

O paradoxo consiste na grande lacuna entre essa experiência coletiva, por um lado, e a impotência para compreendê-la plenamente e, especialmente, para transformá-lo criativamente para o outro.

As visões e metodologias geradas a partir de países periféricos ou por intelectuais de origem periférica, mas que trabalham em países metropolitanos, podem representar pistas para novas possibilidades do pensamento social, bem como às visões e experiências mais relevantes da crítica e da ação.

 

Violência, cotidiano e dor por Veena Das

…encontrar minha voz na companhia de outros é busca para uma vida inteira. Ao estar atento à vida dos outros, também damos sentido a nossas vidas, ou pelo menos é como sinto.

Entre palavras e vidas: Um pensamento de encontro com margens, violências e sofrimentos. Entrevista com Veena Das.

 

O olho não é apenas o órgão que vê, mas também o que chora.

Entre palavras e vidas: Um pensamento de encontro com margens, violências e sofrimentos. Entrevista com Veena Das.

No entanto, essa consciência de nós mesmos como sujeitos coloniais é transformada, por sua vez, por nossa experiência e pela relação que estabelecemos com nossas próprias tradições intelectuais.

Veena Das. Sujetos del dolor, agentes de dignidad. La subalternidad como perspectiva.

O tipo de esforço que relaciona a história colonial com histórias produzidas localmente, contribuirá para expandir as possibilidades de escrever história na sociedade indiana. Fontes não oficiais são abundantes e são facilmente acessíveis, mas a legitimidade daqueles que produzem esses materiais também deve ser reconhecida pela história oficial.

Veena Das. Sujetos del dolor, agentes de dignidad. La subalternidad como perspectiva.

Portanto, compaixão pelo meu amigo doente, o tipo de compaixão que nos faz um com o outro, leva-me a fazer o que posso por ela: agarre a mão dela, ofereça palavras de conforto, traga comida, arrume a cama. Agimos como se fôssemos um corpo único em ação; “Eu posso” complementar meu amigo com minhas habilidades, posso satisfazer seus desejos com o meu esforço… É essa proximidade do relacionamento tanto quanto as ações específicas que eu faço que aliviam seu sofrimento… Dor e doença alteram a comunhão com o mundo natural e social.

Veena Das. Sujetos del dolor, agentes de dignidad. La subalternidad como perspectiva.

 

 

Fontes:

Entre palavras e vidas: Um pensamento de encontro com margens, violências e sofrimentos Entrevista com Veena Das. Disponível em https://revistas.ufrj.br/index.php/dilemas/article/viewFile/7331/5910  Acesso em 01 de agosto de 2019

Veena Das. Sujetos del dolor, agentes de dignidad / ed. Francisco A. Ortega. – Bogotá: Universidad Nacional de Colombia. Facultad de Ciencias Humanas : Pontificia Universidad Javeriana. Instituto Pensar, 2008
568 p. – (Lecturas CES)