“A revolução é agora!” – Silvia Federici no Brasil (Parte 1)

“A revolução é agora!” – Silvia Federici no Brasil (Parte 1)
setembro 26, 2019 Priscila Kikuchi

No dia 24 de setembro de 2019 (terça-feira), aconteceu no Memorial da América Latina, mais especificamente no Auditório Simón Bolivar, o lançamento do livro “O ponto zero da revolução” trabalho doméstico, reprodução e luta feminista, com a presença da historiadora feminista e autora do livro Sílvia Federici, também autora do livro Calibã e a Bruxa,que a tornou amplamente conhecida no meio feminista no Brasil.

As duas obras foram traduzidas pelo Coletivo Sycorax e estão disponíveis para download no site do coletivo. Silvia Federici, que já foi uma das teóricas feministas homenageadas aqui no Blog do Teoria Feminista, fez uma fala breve porém muito acertiva.

Segundo Federicci, o livro é fruto de artigos que a historiadora feminista escreveu em seus trinta anos de carreira e luta feminista, principalmente durante a década de 1970, onde o movimento de mulheres começou a criticar e se organizar significativamente contra a opressão capitalista.

No livro a autora diz que a opressão das mulheres acontece graças ao confinamento da atividade reprodutiva na esfera doméstica, e na desvalorização que o capitalismo faz deste trabalho, não o considerando um trabalho digno de remuneração. Essa situação corrobora com a dependência econômica das mulheres.

Federici disse que o trabalho reprodutivo é o trabalho mais importante, porque é ele reproduz a vida, a força de trabalho e o capital de trabalho. Por conta disso, além de criticar o capitalismo, a historiadora também critica a esquerda, especialmente os homens que se recusou a ver o setor de exploração no qual as mulheres pertenciam. Isso fez com que as reivindicações da esquerda reproduzissem em grande parte, as mesmas formas de exploração capitalista.

A historiadora feminista também reforça que o trabalho reprodutivo não é um trabalho como qualquer outro, é um trabalho que produz serem humanos, e que por isso mantém o capitalismo e o trabalho que está dentro do mercado como reconhecido.

São as mulheres que reproduzem os trabalhadores, são elas que sustentam todos os outros trabalhos. “O trabalho reprodutivo está no centro da reprodução capitalista”. Sobre o salário, Federici diz que a principal função dele é dividir e separar o que é trabalho e o que não é. O salário então é um produtor e legitimador de poder e manutenção do poder dos homens sobre as mulheres.

Federici também enfatizou que as diversas propostas de igualdade não são suficientes para acabar com a exploração das mulheres, e que o que realmente pode ter uma significativa relevância nesse debate é olhar para a realidade social e para o capitalismo, e reivindicar uma transformação feminista sob a perspectiva da reprodução.

A historiadora ainda pontuou que a partir dos anos de 1980, capitalismo iniciou a sua nova fase conhecida mundialmente como neocapitalismo tendo como sua expressão mais significativa a globalização.

O neocapitalismo recoloniza o mundo através das privatizações, dos deslocamentos e da criação de novas formas de financiamentos bancários mundiais colocando países de terceiro mundo em situação de dependência.

A questão dos deslocamentos, que chamamos também de fluxos migratórios nunca foram tão feminizados. Federici disse que principalmente as mulheres da América Latina e da África, estão migrando cada vez mais para países da Europa para trabalharem como domésticas, para mandar dinheiro para a família que ficou no continente de origem. Mesmo conseguindo emprego, essas mulheres não conseguem garantir uma qualidade de vida.

Portanto, há um falso discurso em torno da ideia da emancipação feminina por vias da inserção no mercado de trabalho, pois os salários são mais baixos, elas continuam fazendo o trabalho doméstico não remunerado, e esse acumulo traz riscos a sua saúde. Há na verdade, de acordo com a fala de Federici, uma intensificação da exploração do trabalho feminino.

A globalização ataca diretamente a capacidade do trabalho reprodutivo no que tange o reconhecimento do mesmo, e expande o capitalismo para lugares onde o mesmo não se encontrava tão intenso, deslocando e desmantelando as comunidades. Em consequência disso, vivemos uma realidade de empobrecimento ao redor do mundo, o aumento da violência e os diversos processos de encarceramento da juventude, especialmente a negra (contexto dos Estados Unidos mas que pode ser aplicado ao nosso).

Federici também diz, com base nos estudos de Rita Laura Segato, que o aumento das ocorrências de violência contra mulher é a forma mais eficaz de acabar com a comunidade. Assim como Marielle Franco, muitas mulheres estão protagonizando lutas em diversas frentes, por isso disse que sua maior preocupação é reconhecer que a violência como uma resposta ao protagonismo das mulheres.

A historiadora enfatiza que a luta feminista é uma luta comunitária, que cria espaços para novas formas de reprodução. Formas estas que criam estratégias de re-apropriação das riquezas, que supere o isolamento que caracteriza a tradicional reprodução de nossas vidas nos centros urbanos. Federici também mencionou que as mulheres inventam novas formas de comunidade. Nas últimas décadas, na América Latina, e em outros centros urbanos, estão se desenvolvendo grupos de cooperação entre mulheres como cozinhas comunitárias e assembléias, e isso é crucial e uma inspiração real para os movimentos feministas.

E por fim, Federici encerra a sua fala dizendo que vivemos situações de intensa contradição, de um lado, temos a violência institucional cada vez mais intensa, de outro, um significativo crescimento do feminismo popular que não diz apenas não, mas que também constrói, desconstrói e torna a construir novas bases de vida. Um feminismo que gera uma fábrica social estável capaz de resolver questões cotidianas e estruturais de forma coletiva, sendo a infraestrutura de reprodução dessa luta a criação de resistência.

A REVOLUÇÃO É AGORA!