Miss Universo 2019 e o direito à beleza

Miss Universo 2019 e o direito à beleza
dezembro 9, 2019 Priscila Kikuchi

Miss Universo 2019 e o direito à beleza

 

Aconteceu nesse final de semana (08/12) o Miss Universo 2019 e a vencedora do evento foi a sul-africana Zozibini Tunzi, de 26 anos,  após superar 89 adversárias no concurso. Tunizi entra na história sendo a terceira sul-africana a vencer a competição depois de Margaret Gardiner (1978) e Demi Leigh Nem Peters (2017). Além disso, Tunizi quebra um jejum de oito anos sem uma mulher negra como vencedora do Miss Universo, a última foi Leila Lopes em 2011, quando a competição aconteceu no Brasil.

Sobre a beleza da vencedora não há o que dizer, e nem é o foco das reflexões aqui do teoria feminista, e não é porque não achamos isso importante. Aliás pensar a beleza sempre é um assunto importante e muito controverso.

O que chamou a atenção foi a fala da vencedora mencionada na imagem acima, e é a partir dela que queremos pensar a questão da beleza.

Sabemos que concursos de beleza de maneira geral são alvos de críticas feministas há muito tempo. Há sim toda uma lógica excludente, mercadológica e política nestes eventos. Não é das melhores coisas que existe no mundo, e claro, nunca foi o evento mais representativo para as mulheres. Porém, assim como em alguns outros lugares e eventos de mulheres, o Miss Universo, seja por suas competidoras ou pela pressão social, não está conseguindo “fugir” das pautas feministas mesmo não querendo nomeá-las dessa maneira. Apesar de todos os pesares, o feminismo, ou pelo menos, a “inspiração” feminista já faz parte da vida e da fala, nem que seja de maneira sutil, da vida de muitas mulheres. Cabe então “aceitar” esse fato. a

Recentemente tivemos a republicação da obra de Naomi Wolf “O mito da beleza” que ganhou bastante destaque em meios feministas. Me dá a impressão de que a beleza nunca vai sair de moda não é mesmo?! E que por conta disso, esse espaço precisa ser subversivamente ressignificado. Isto é, a beleza precisa parar de ser um privilégio branco e de classe para ser entendido como um direito de todas as pessoas.

Parece estranho considerar a beleza um direito né? Isso acontece porque é preciso derrubar a construção ideológica e material do que é belo, e agregar o reconhecimento da multiplicidade de existências diferentes como algo que realmente é bonito no mundo.

Quando li essa parte do discurso de Tunzi, no mesmo momento me lembrei da cantora pop Madona recitando um verso da escritora Rupi Kaur “Quero pedir desculpa a todas as mulheres que descrevi como bonitas antes de dizer inteligentes ou corajosas…” o verso continua dizendo assim: “Fico triste por ter falado como se algo tão simples como aquilo que nasceu com você, fosse seu maior orgulho…”

Pessoalmente não é possível concordar com Kaur, entendo de que lugar ela fala, mas é um lugar que não fala por outras. A beleza não é “algo tão simples”, ela discrimina, categoriza, por vezes machuca especialmente aquelas mulheres que nunca tiveram o direito de se sentirem bonitas como bem coloca Tunzi. Quantas mulheres já não quiser se tornar inteligentes demais por nunca serem consideradas bonitas? Tipo lei da compensação sabe?!

Desculpem-me fãs de Madonna mas é muito fácil uma mulher no auge de seus privilégios de raça e classe, e de ser considerada um ícone da “revolução sexual” desprezar a beleza em prol de uma suposta valorização da inteligência. Quero deixar claro que minha crítica aqui vai para a falta de sensibilidade da branquitude dentro do feminismo para às dimensões do racismo e da xenofobia no que diz respeito a classificação do belo e dos corpos na sociedade.

Zozibini Tunzi com seu discurso traz a tona o que é o direito à beleza e é por ele que temos que lutar!

 

 

Fonte das informações:

Portal G1

Revista Marie Claire