“Somos muito fortes, a gente faz parir criança!”- Silvia Federici no Brasil (Parte 2)

“Somos muito fortes, a gente faz parir criança!”- Silvia Federici no Brasil (Parte 2)
setembro 27, 2019 Priscila Kikuchi

O lançamento do livro “O ponto zero da revolução” trabalho doméstico, reprodução e luta feminista, da historiadora feminista e autora do livro Sílvia Federici, organizado pela Editora Elefante, promoveu um diálogo que contou com a presença de Marileia de Almeida, doutora em História pela UNICAMP, que possui pesquisas com foco no feminismo negro. Sua pesquisa mais recente leva como título: A experiência das mulheres quilombolas: raça e gênero na criação dos corpos étnicos; Sabrina Fernandes, socióloga professora, ativista e youtuber, conhecida no país pelo seu canal chamado Tese Onze, onde elabora vídeos com debates, informações e críticas à esquerda a partir de uma perspectiva marxista e progressista, doutora em sociologia e especialista em economia política pela Universidade Carleton no Canadá.; e Jera Guarani,  professora e líder do povo Guarani Mbya, da aldeia indígena Tenonde Porã,  formada em Pedagogia pela USP, e que desde 2012 realiza atividades dentro e fora da aldeia pelo direito legítimo da demarcação da terra indígena.

Cada uma das convidadas teve um momento de reação a fala inicial de Silvia Federici. Segue abaixo uma tentativa de transcrição das falas mais importantes de cada uma das convidadas.

Marileia de Almeida destacou em sua fala a importância de se pensar o trabalho doméstico no Brasil a partir do corpo das mulheres negras, pois são seus corpos que carregam traumas e cicatrizes. Segundo a historiadora, só é possível construir uma luta feminista comum a partir desse viés. Marileia de Almeida chamou a atenção para o fato de que se as mulheres brancas reproduzem a força de trabalho, as mulheres negras reproduzem corpos descartáveis, e ressaltou ideia de que o racismo é uma racionalidade, isto é, há corpos que não importam, por isso a necessidade de se adensar a noção de trabalho reprodutivo defendido por Federici. A historiadora ainda disse que nos últimos anos, o feminismo tem alcançado muitas pessoas, sendo as mulheres negras protagonistas na construção de comunidades afetivas, não por ser algo natural, mas é porque dentro da lógica capitalista, as mulheres negras tem como “opção” cuidador da vida, por isso o aumento do trabalho doméstico especificamente para essas mulheres. Ao se aumentar esse trabalho, aumenta-se também as dores e as feridas. Portanto, precisamos de um feminismo que além de tudo, saiba curar.

Sabrina Fernandes reagiu a fala de Federici destacando que a luta de mulheres no Brasil não deve esvaziar as demais lutas, isto é, cada dia que passa, tem sido ainda mais necessário que as mulheres engrossem as fileiras não só das discussões específicas de gênero, mas também outras pautas. Destacou também a invisibilidade do trabalho das mulheres, e como consequência disso, a predominância de uma figura homogênea e masculina da revolução. Com esta fala, a socióloga denuncia os impedimentos “indiretos” da participação das mulheres na esquerda. Sabrina Fernandes também destacou que é preciso reconhecer a diversidade e construir pontes de solidariedade na luta feminista.

Jera Guarani começou sua fala criticando o termo “não civilizado” que sempre é direcionado à população indígena. Sua fala questiona o fato de que os “teoricamente civilizados” fazem tantas coisas ruins, além de pensar os povos indígenas como incapazes de se organizar e protagonizarem suas lutas e conquistas. Diretamente sobre em relação a fala de Federici, a pedagoga ressalta que as mulheres são fortes, nas palavras dela: “Somos muito fortes, a gente faz parir criança”, e associa esse poder como algo que causa medo nos homens e por isso os mesmos devem oprimir as mulheres. De maneira geral, Jera Guarani coloca que o trabalho reprodutivo das mulheres é o principal alvo do controle dos homens sobre as mulheres. De acordo com Jera Guarani, sua aldeia se caracteriza por respeitas as mulheres, pois são elas mantém o mundo, por isso a luta de mulheres indígenas neste contexto consegue tirar a figura do homem que manda em tudo. Ela também colocou que os mais velhos da tribo têm a consciência de que a violência contra a mulher é um abuso e não pode existir.

As reações e fala das participantes do debate contextualizaram e ampliaram a fala de Silvia Federici no evento. São falas vindas de diversos lugares e a partir de corpos que representam a diversidade das mulheres no Brasil.