“Nada além desse túmulo de papel”, enfeitado com flores de memórias tristes.

“Nada além desse túmulo de papel”, enfeitado com flores de memórias tristes.
maio 8, 2019 Priscila Kikuchi

Resenha: MUKASONGA, Sholastique. Baratas. São Paulo. Editora Nós. 2018.

A palavra Inyenzy que significa humilhado/a, perseguido/a, assassinado/a impunimente, também serviu para classificar os tutsis durante o genocídio em Ruanda. Foi traduzido para o português por Baratas, animal cuja presença é repugnante uma praga que precisa ser eliminada.

Baratas é o último livro da trilogia escrita por Sholastique Mukasonga e lançada em português pela editora Nós sobre a experiência da autora como uma sobrevivente do genocídio em Ruanda. Baratas expõe a memória pessoal da autora que se mescla à memória coletiva. É um livro de memórias. Um romance que se esforça em nos mostrar a importância de se lembrar dos mortos para que eles/as sejam dignamente velados. É um livro de memórias tristes. O livro mais triste de toda a trilogia.

Nessa resenha faço breve relatos sobre as memórias que Sholastique Mukasonga compartilha com seus/suas leitores/as. Memórias de uma dor que parece que nunca terá fim, mas que não podem ser esquecidas

 

Memória da desmemória.  

O catolicismo é um tema recorrente na trilogia de Mukasonga. No livro Baratas a autora revela que os assassinos hutus e os/as tutsis congregavam na mesma igreja. Os cânticos e as homilias proferiam um discurso de eliminação da memória:

“Perdoe-nos uns aos outros,

e continuemos como se nada tivesse acontecido” (p.16)

A religião encabeça um processo de desmemória coletiva um projeto de dominação que leva a eliminação do povo tutsi. A cumplicidade da igreja com o genocídio tutsi fica ainda mais evidente quando Mukasonga relata:

“Na segunda feira dia 11, os militares e uma turba de assassinos voluntários tomam Kayumba de assalto. As famílias tutsis que estavam agrupadas ali fugiram, e os sobreviventes procuraram refúgio na igreja de Nyamata. Ali, foram massacrados no dia 14”… (p.143)

 

Memórias da coletividade.

Os massacres e especialmente os casos de sequestros desesperavam as famílias tutsis. Esse sentimento comum dava uma suposta consciência étnica, um sentimento reforçado de solidariedade (p.23). Realidade esta que contribuiu com o fortalecimento da memória coletiva entre os tutsis. Mukasonga quando narra os acontecimentos não fala somente por si, mas cita diversos nomes de pessoas que viviam a mesma dor e agonia dela e de sua família.

Apesar de escassas, Mukasonga também relata memórias de alegria, como aquela de quando foi noticiado no rádio que ela tinha sido aprovada no exame para estudar no Liceu. A alegria, assim como a tristeza, também era partilhada com todas as pessoas. A entrada de Mukasonga no liceu era a esperança de que a memória não se perderia.

 

Memórias da escola.

A garantia de que a memória não seria perdida com a entrada de Mukasonga no liceu teve um preço alto. Sobre os anos que passou estudando não só no liceu, mas em outras escolas e espaços que teve acesso, Mukasonga faz relatos de situações de humilhação e de esforço dobrado pelo fato de ser uma tutsi. No liceu, Mukasonga era a única tutsi do grupo e relata:

“Todas as meninas começavam a conversar, mas ninguém se dirigia a mim…” (p.88)

Mukasonga também relata que ela tinha uma atitude de “solicitude exagerada” e esperava que isso a protegesse de não ser expulsa do liceu. Era preciso também ter as melhores notas, o que a fazia estudar todas as noites. Segundo a autora, durante os três anos neste liceu, ela não dormia.

Em 1971 foi aceita na escola de serviço social em Butare, a realidade dessa escola era relativamente melhor e mais descontraída porque não havia a presença de religiosos/as, mas esse “refresco” durou pouco. Já em 1972 acontecem os ataques sangrentos, e em 1973 acirra-se o cerco contra os tutsis fazendo com que Mukasonga seja expulsa da escola.

“Do nosso esconderijo, vimos passar nossas colegas que lideravam os meninos do grupo escolar, gritando: “As inyenzis, é o fim delas, desta vez elas vão se ver com a gente”. (p.106)

 

Memórias de refúgio.

Toda essa situação fez com que Mukasonga entre outros/as tutsis procurassem refúgio em Burundi, ali a autora diz que foi acolhida por viúvas, conheceu seu marido Claude e começou a trabalhar em um trabalho de desenvolvimento rural junto a UNICEF. Mukasonga descreve no romance que nesse momento, sentia que Ruanda parecia uma realidade distante:

“Já não era mais nada que uma ferida sem cura” (p.121)

 

Memória da última visita aos pais do genocídio.

Somente em 1986 Mukasonga consegue rever os pais. O que ela não sabia é que aquela seria a última vez que os veria. Em 1994 acontece o genocídio que assassinou praticamente toda a sua família. Mukasonga nunca soube ao certo o que aconteceu direito.

 

Retorno à Ruanda: a memória viva dos mortos

Mukasonga volta para Ruanda no ano de 2004 e muitas lembranças e perguntas tomam conta de sua mente durante essa viagem. Sente como se os/as mortos/as pudessem falar com ela. Faz questão de percorrer lugares conhecidos, se questiona, chora e se recompõe. Como leitora, tive a impressão nesse momento que ela faz o velório e a via de sepultamento que não lhe foi permitida no momento da morte dos seus.

 

… nada além de um túmulo de papel. (p.182)

O livro termina com essa frase, definindo bem o que é o último livro da trilogia de Mukasonga sobre o genocídio em Ruanda. Mukasonga nos leva a profundidade dolorida de suas memórias como sobrevivente. É impossível não se deixar envolver nessa narrativa tão intensa, de não se revoltar com a cumplicidade dos europeus, da igreja e da ONU, com o genocídio em Ruanda. Ao nos levar às suas memórias através de sua escrita, Mukasonga compartilha conosco a sua dor e não nos deixa indiferente a ela.

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